
Um documento divulgado nas redes sociais colocou em evidência um conflito entre a Santa Casa de Misericórdia de Mococa e a Prefeitura sobre o dinheiro usado para bancar atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). O impasse levanta preocupação porque envolve o hospital que atende a maior parte da população que depende do SUS no município.
O ofício foi enviado pela Santa Casa à Prefeitura no dia 14 de janeiro de 2026 e é assinado pelo Conselho de Administração do hospital. No texto, a instituição afirma que a Prefeitura não vem cumprindo acordos financeiros firmados em convênios e alerta que a situação pode comprometer o funcionamento do hospital e o atendimento aos pacientes.
Logo no início, a Santa Casa critica a postura da administração municipal nas negociações. Segundo o documento, representantes da Prefeitura usam discursos “mascarados com palavras melífluas”, ou seja, falas aparentemente educadas, mas que, na prática, não se traduzem em soluções concretas para os problemas do hospital.
A Santa Casa afirma que a Prefeitura deixou de repassar valores previstos em convênios. Em 2024, segundo o hospital, R$ 240 mil não foram pagos no prazo e só chegaram mais de um ano depois, em dezembro de 2025. No ofício, o hospital afirma que o pagamento foi tratado como um favor, quando se tratava de uma obrigação legal.
Em 2025, a situação teria se agravado. A Santa Casa aponta que o valor do convênio caiu de R$ 1,56 milhão para R$ 1,008 milhão e que, durante todo o ano, apenas R$ 224 mil foram repassados. O restante ficou para ser pago de forma parcelada em 2026. Para o hospital, isso demonstra falta de compromisso com a saúde pública.
O documento também afirma que a Prefeitura deixou de repassar recursos de um convênio específico, formado por emendas de vereadores, que seriam usados para cirurgias eletivas do SUS. Na prática, isso significa menos cirurgias para pacientes que aguardam em filas.
Outro ponto levantado pela Santa Casa é a demora na apresentação do novo convênio para 2026. Segundo o hospital, as negociações começaram a ser cobradas ainda em outubro de 2025, mas a proposta só foi apresentada depois do vencimento do contrato anterior e enviada de forma informal, sem tempo suficiente para análise técnica.
A Santa Casa afirma que o novo modelo de financiamento proposto pode tornar o atendimento inviável. De acordo com o documento, o valor fixo mensal cairia de cerca de R$ 958 mil para R$ 326 mil. Isso, segundo o hospital, colocaria em risco a manutenção de 100 leitos SUS e poderia afetar mais de 80% das internações realizadas no município.
O hospital também explica que hoje já banca parte da saúde pública com recursos próprios. Segundo o ofício, para cada R$ 1 recebido do poder público em 2024, a Santa Casa gastou cerca de R$ 1,70 para atender pacientes do SUS. Em 2025, mesmo com cortes de gastos, ainda teria sido necessário gastar R$ 1,30 para cada real recebido.
A divulgação do ofício nas redes sociais gerou forte repercussão e críticas à Secretaria Municipal de Saúde. Dias depois, o secretário de Saúde, Fábio Delduca, publicou uma manifestação em suas redes sociais pessoais para rebater as acusações.
Na publicação, o secretário afirmou que a Santa Casa pode receber, em média, R$ 1,5 milhão por mês para atender pacientes do SUS, considerando valores fixos, repasses do Ministério da Saúde e a complementação do programa SUS Paulista. Segundo ele, quanto maior for a produção de atendimentos e cirurgias, maior será o volume de recursos recebidos.
Delduca também afirmou que o modelo segue a lógica aplicada em todo o SUS, na qual os repasses aumentam conforme a produção, e classificou o conteúdo do ofício como baseado em “narrativas caluniosas”. Segundo o secretário, a gestão municipal atua com transparência e responsabilidade.
Para a população, o impasse acende um alerta. A Santa Casa é o principal hospital do município e atende a maior parte dos pacientes do SUS. Caso não haja acordo entre as partes, o risco é de redução de atendimentos, aumento de filas e dificuldade para internações e cirurgias, afetando diretamente quem depende da rede pública de saúde.
O TVD Notícias procurou pela Administração do Hospital, e em entrevista o diretor administrativo da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Mococa, Alexandre Soares, afirmou que o hospital é uma entidade filantrópica, autônoma e não pertence ao município, dependendo de convênios para realizar os atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). “O município de Mococa não tem um hospital municipal, a Santa Casa é um hospital autônomo, é um filantrópico, é uma organização independente”, destacou.
Segundo ele, a Santa Casa procurou a Prefeitura ainda no ano passado para iniciar as tratativas de renovação do convênio, antes do vencimento do contrato em 31 de dezembro de 2025. “Esse assunto tinha que ter começado a ser tratado desde meados de setembro, começo de outubro”, afirmou, explicando que o hospital buscou a Secretaria Municipal de Saúde com antecedência para debater cláusulas, valores e impacto financeiro. Apesar disso, a proposta oficial só foi enviada em janeiro de 2026. “Infelizmente a proposta foi muito atrasada, tardia, e acabou criando um problema muito grande.”
Alexandre disse que o modelo apresentado trouxe mudanças consideradas inviáveis. “Enviaram uma proposta com alterações muito impactantes, principalmente do ponto de vista financeiro, mas também operacional. Resumidamente, pedindo mais por menos recurso financeiro”, afirmou. De acordo com ele, a proposta foi analisada pela equipe administrativa, financeira e contábil da Santa Casa e, posteriormente, rejeitada pelo Conselho de Administração.
Mesmo sem convênio ativo, o diretor garantiu a continuidade dos atendimentos. “A Santa Casa está atendendo e está sem o convênio ativo. Não deixou de atender. A responsabilidade é muito grande, a vida das pessoas”, disse, ressaltando, porém, que a ausência de previsibilidade financeira amplia o déficit do hospital.
O diretor explicou que o financiamento da Santa Casa é tripartite, com recursos dos governos federal, estadual e municipal. Segundo ele, os repasses federais e estaduais têm ocorrido regularmente, mas os recursos de responsabilidade do município sofreram atrasos e cortes. “Em 2024 chegaram a ficar devendo R$ 240 mil, que só foram pagos agora, no fim de 2025”, relatou. Em 2025, além da redução do valor do convênio, parte significativa não foi repassada dentro do ano.
Alexandre também contestou a informação de que a Santa Casa poderia receber até R$ 1,5 milhão por mês. “Isso pode gerar um equívoco, parece que é muito dinheiro, mas não é”, afirmou. Segundo ele, a instituição recebe cerca de R$ 1,7 milhão por mês para o SUS, enquanto os custos chegam a R$ 2,56 milhões. “O prejuízo mensal gira em torno de R$ 860 mil.”
Ele ressaltou que, em 2024, para cada R$ 1 recebido do poder público, a Santa Casa gastou R$ 1,70, e em 2025, mesmo com ajustes, o gasto foi de R$ 1,30 por real recebido. “A Santa Casa financia uma parte da saúde pública”, disse, destacando que o equilíbrio das contas depende de atendimentos particulares, convênios, doações e campanhas comunitárias.
Sobre a proposta atual da Prefeitura, Alexandre afirmou que a redução do valor fixo mensal para cerca de R$ 326 mil, com complementação variável por produção, compromete a previsibilidade financeira. “Além de não ter previsibilidade, eu vou ter um déficit maior. Isso seria desastroso e catastrófico para o hospital”, alertou.
Por fim, o diretor administrativo afirmou que a Santa Casa busca diálogo e uma solução técnica. “A gente quer chegar a um denominador comum, quer conciliar, mas isso exige critério, tempo e responsabilidade”, disse. Ele defende a prorrogação temporária do convênio nos moldes anteriores. “Estamos falando de vidas. O atendimento segue, mas precisamos sair desse impasse com responsabilidade.”
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