
Em um bairro essencialmente familiar de Mococa, a insegurança deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina. Moradores evitam sair de casa, crianças já não brincam nas calçadas e idosos têm medo de circular pelas ruas. Do outro lado dessa história estão os cães de rua que dominam a área — animais abandonados, sem informação de vacinação, sem castração e sem qualquer política pública de acolhimento. Duas realidades distintas, mas unidas pela mesma causa: o abandono.
Segundo relatos colhidos pela reportagem, grupos de cães tornaram-se territorialistas e passaram a atacar pedestres, ciclistas e veículos. Uma cuidadora de idosos foi atacada por volta das 19h ao caminhar pelo bairro. Traumatizada, ela teme agora as consequências à saúde. “Veio um bando em cima de mim. Não atacaram o casal que estava na frente, morderam justo eu”, relatou. Além dela, um idoso caiu da bicicleta ao ser cercado pelos animais, e uma criança foi mordida recentemente.

O medo é generalizado. Pais não se sentem seguros para deixar os filhos saírem sozinhos. Motociclistas relatam ataques frequentes. Moradores dizem viver em estado permanente de alerta. “É um bairro familiar, cheio de crianças e idosos, mas ninguém mais se sente seguro”, afirmou um residente.
Ao mesmo tempo, os próprios cães são retratos vivos da negligência. Sem tutor, sem acompanhamento veterinário e sem controle populacional, vivem expostos à fome, doenças, agressões e à morte. Um dos episódios mais chocantes citados pelos moradores foi o envenenamento de um pastor-alemão dócil que convivia com o grupo. “Eles também são vítimas. Estão assim porque foram largados”, disse uma moradora.
Esse cenário local dialoga com um caso que chocou o país recentemente: a morte do cão comunitário Orelha, espancado até a morte por adolescentes. O episódio reacendeu o debate sobre maus-tratos e mostrou que abandonar um animal não é um ato neutro — é empurrá-lo para uma vida de sofrimento contínuo, onde a violência chega mais cedo ou mais tarde. Deixar cães nas ruas é, na prática, condená-los a morrer aos poucos.

Moradores afirmam que o problema se arrasta há mais de um ano e denunciam a ausência do poder público. Reclamações foram feitas na ouvidoria da prefeitura e a vereadores, sem resposta concreta. “A gente paga imposto e ninguém resolve. Já tem criança mordida, idoso machucado. Cadê a prefeitura para castrar, vacinar, acolher?”, questionou um morador.
Entre as principais reivindicações estão a castração e vacinação dos animais, além de um plano de acolhimento adequado. Há também o alerta para um cão específico, considerado extremamente agressivo, que já teria atacado até uma pessoa que tentou adotá-lo, exigindo acompanhamento especializado.
Durante a apuração, a equipe da reportagem presenciou comportamentos distintos por parte dos cães. Houve, sim, manifestações agressivas contra veículos: os animais correram atrás de carros e motocicletas que passavam pela via, numa reação típica de cães que vivem em bando e defendem território.
Ainda assim, ao perceberem a aproximação humana sem movimentos bruscos ou ameaçadores, o comportamento mudou. A equipe se aproximou de forma gradual, falando baixo e evitando gestos repentinos. Aos poucos, os cães recuaram e passaram a observar à distância. Minutos depois, se aproximaram espontaneamente, aceitaram contato e demonstraram comportamento dócil — inclusive o animal apontado por moradores como o mais agressivo.

Porém vivendo sem abrigo, sem rotina e sem segurança, esses animais passam a agir movidos pelo medo e pela defesa, não por violência deliberada.
Procurada, a Prefeitura de Mococa — por meio das secretarias de Saúde, Meio Ambiente e Comunicação — como sempre, não se manifestou. A ONG Associação São Francisco de Assis informou que está sem capacidade para receber novos animais, enfrentando falta de recursos financeiros e de voluntários.
Enquanto o impasse persiste, o bairro segue dividido entre o medo de novas agressões e a consciência de que os cães, assim como os moradores, também estão abandonados. Em comum, todos vivem na insegurança — uns trancados em casa, outros soltos nas ruas — aguardando uma resposta que nunca chega.
Serviço
Quem puder ajudar ou tiver interesse em adoção pode entrar em contato com a Associação São Francisco de Assis pelo e-mail [email protected] ou WhatsApp (19) 99197-4937. Informações adicionais também podem ser repassadas à TVD Notícias pelo WhatsApp (19) 99207-4422.
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