
Imagine acordar, pegar o celular e, antes mesmo do café, já ter recorrido a uma ferramenta capaz de sugerir rotas, indicar filmes, criar imagens, organizar tarefas do trabalho e até aconselhar sobre dilemas pessoais. A cena, que poderia remeter à ficção científica, tornou-se parte da rotina de milhões de brasileiros em 2026.
O levantamento “Consumo e Uso da Inteligência Artificial no Brasil”, realizado pelo Instituto de Pesquisa Datafolha, aponta que 82% dos brasileiros já ouviram falar em inteligência artificial, mas apenas 54% afirmam compreender de fato o que ela é. Ainda assim, 93% utilizam pelo menos uma ferramenta baseada na tecnologia.
A presença é silenciosa e disseminada. Nas redes sociais — como Instagram, WhatsApp e Facebook — 89% dos usuários interagem com algoritmos que filtram conteúdos e sugerem conexões. Em plataformas de streaming como Netflix e Spotify, 78% recebem recomendações personalizadas. Já 43% afirmam ter utilizado geradores de texto, como o ChatGPT.
No comércio e nos estudos, a tecnologia se tornou apoio recorrente: “Eu uso bastante aqui pro trabalho, para fazer as artes, para vender, para fazer conteúdo, ter ideia de conteúdo. Uso bastante. Uma pessoa física, um professor, é insubstituível, mas ajuda bastante nos estudos”, resume a vendedora Ana Clara Araújo pontuando como a tecnologia é presente no seu cotidiano. A jovem integra os 47% que utilizam IA para estudar e os 50% que a empregam no trabalho.
Para a comerciante mocoquense Marcilene Jacob, que possui uma loja de roupas, a ferramenta é descrita como parceira. “Às vezes chega uma mercadoria que eu não entendo o que é, vou lá na fotinha e o IA me dá para que serve aquele produto. Se quero fazer algo na loja, ele me dá as letras também. Você se expressa, tira dúvidas... ele é super inteligente e te dá o que você realmente precisa”, afirma.
Ela também recorre à tecnologia para organizar o espaço físico do comércio e planejar campanhas. E, em momentos pessoais, admite outro tipo de uso: “Eu acho bem interessante... coloco ‘estou muito triste hoje’ e ele fala comigo, explica o que estou sentindo. É uma coisa que a gente consegue desabafar e aprender”.
O comportamento acompanha uma tendência nacional. Segundo o Datafolha, 45% dos brasileiros já usaram IA como auxílio na saúde mental; 27% buscaram aliviar a ansiedade e 26% pediram conselhos. Entre eles, 58% disseram ter obtido ajuda.
Prestes a inaugurar um novo endereço comercial, José Roberto Filho também incorporou a tecnologia à rotina.
“Hoje em dia é quase impossível não usar. Estou montando minha loja e trabalhando em cima disso; você não perde mercadoria, vê como vai ficar antes. Às vezes não gosta e muda. Está sendo indispensável”, afirma.
Apesar do entusiasmo, ele alerta que a mágica chamada tecnologia é perigosa: "Você vê a pessoa pegar foto de qualquer pessoa e simular até traições... situações que não são reais. Tem muitos fake news”.
O receio encontra respaldo nos números. O estudo aponta que 76% dos brasileiros temem o aumento de fake news com o uso de IA, e 82% defendem que conteúdos produzidos por sistemas automatizados sejam identificados por lei. Outros 42% manifestam preocupação com o uso descontrolado de dados pessoais.
No setor criativo, as mudanças também são evidentes. O publicitário Neto Costi afirma que a ferramenta já faz parte da rotina das agências. “A IA ajuda muito no dia a dia, inclusive na agência de publicidade, mas tem que ter cautela e saber dar os comandos certos. Não adianta achar que ela vai fazer tudo; ela ajuda com ideias, mas não faz uma campanha inteira.
O problema hoje é que você não sabe mais o que é inteligência artificial e o que é verdadeiro”, diz.
A percepção sobre o impacto profissional é ambivalente: 43% enxergam efeitos positivos no trabalho, enquanto 49% veem ameaça ao próprio emprego. Além disso, 41% afirmam já ter conhecimento de casos de substituição de trabalhadores por sistemas automatizados.
Entre o encantamento e o alerta, a inteligência artificial se consolida no balcão do comércio, na sala de aula, nas agências, na construção civil, no jornalismo e até nos desabafos cotidianos. O debate já não se resume à adoção da tecnologia.
A questão central passa a ser como regulá-la, compreendê-la e integrá-la a uma sociedade que, em tempo real, aprende a conviver com uma nova forma de inteligência.
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